Em cima da hora, sem sinalização antecipada e com apenas três dias para a população se preparar. Assim foi divulgado o aumento na tarifa de ônibus urbano em Salvador, que passou hoje (26) a custar R$ 4,40, ou seja, 20 centavos mais cara que o valor anterior (R$ 4,20).

Segundo a Prefeitura, o reajuste é anual e está previsto em contrato com as concessionárias que operam o sistema. Ele deveria ter acontecido desde março, mas, devido ao processo de intervenção na Concessionária Salvador Norte (CSN), encerrado no mesmo mês, e ao agravamento da pandemia, foi adiado. Ainda segundo o município, a alteração no valor foi autorizada em função do aumento de insumos básicos para a operacionalização do serviço, como o preço do óleo diesel, que teve aumento acima dos 20% nos últimos meses.

O aumento consolidou a passagem da capital baiana como a mais cara de todo o Nordeste e uma das mais caras do Brasil. Para se ter uma ideia, o valor se igualou ao de São Paulo (SP), cidade mais populosa do país, com mais que o quádruplo de habitantes de Salvador (pouco mais de 12 milhões) e uma frota quase 7 vezes maior (pouco mais de 13.900 ônibus). Por isso, durante o último final de semana, comparações entre os dois sistemas tomaram conta das redes sociais. Afinal, a capital paulista possui ônibus de melhor qualidade, maiores e mais confortáveis, coisa que Salvador ainda está muito longe de ter.

Não faltou também quem lembrasse do fato de São Paulo ter salários maiores, justificados pelo alto custo de vida, o que tornou a questão ainda mais escandalosa. Afinal, quem mora por aqui ganha menos e vai pagar o mesmo valor que pessoas com maior renda recebem. Porém, apesar do mesmo preço, é importante lembrar que, em terras paulistanas, o valor foi reajustado ainda no início de 2020 e só não aumentou no começo desse ano por decisão do poder público local em mantê-lo congelado devido à pandemia. Além disso, os sistemas têm características bastante diferentes.

De onde vem o dinheiro?

A cidade de São Paulo é conhecida pelos seus ônibus mais confortáveis e até mesmo maiores. Devido à enorme quantidade de pessoas que vivem nela, veículos dos tipos articulado e superarticulado, com 18,5 e 23m de comprimento, respectivamente, são essenciais para transportar a maior quantidade possível de passageiros.

No entanto, como são mais caros, a aquisição desses ônibus só é possível graças aos chamados subsídios, ou seja, recursos financeiros injetados pela prefeitura para que as empresas possam investir em veículos que atendam às necessidades das passageiras e passageiros. Apenas para se ter uma ideia: segundo a SPTrans, empresa municipal responsável por gerenciar o sistema, entre 1º de janeiro e 21 de dezembro do ano passado, os subsídios acumulavam R$ 3,29 bilhões. A aplicação dessa enorme quantia em dinheiro é possível, principalmente, graças ao poderio econômico da cidade, conhecida por ser o centro financeiro do país.

Já o cenário da capital baiana é bastante diferente. Por aqui, a prefeitura alega não ter recursos para subsidiar o sistema como um todo, embora tenha investido R$ 120 milhões durante o processo de intervenção da CSN, recém-encerrado com a caducidade de seu contrato. A engrenagem sobrevive apenas da tarifa, que é paga por quem utiliza os veículos, seja através da tarifa inteira ou da meia-passagem. Inclusive, a falta de subsídios é um problema comum à maioria das capitais brasileiras.

Integração multimodal

Embora a tarifa de ônibus na cidade de São Paulo seja R$ 4,40, os paulistanos não dependem apenas de um sistema. Pelo contrário: a capital é conhecida pelo mais eficiente e extenso sistema metroviário do país. São 6 linhas e um total de 101,1 km de extensão. Além disso, há os trens metropolitanos que cortam várias cidades da região metropolitana, com 7 linhas e 273 km de extensão.

Ao contrário do que ocorre em Salvador, a integração entre todos esses modais não é gratuita. Lá, pegar um ônibus e, em seguida, um trem metropolitano ou metrô sai bem mais caro: R$ 7,65, ou seja, R$ 3,25 a mais. Porém, a tarifa integrada permite até três embarques em ônibus diferentes no período de 3 horas e um embarque no sistema de trilhos, nas duas primeiras horas. Ou seja, o tempo de integração também é maior, justificado pelo tamanho da cidade e das distâncias, o que impacta nos deslocamentos para quem mora longe dos locais de trabalho ou estudo.

Na capital baiana, a integração entre ônibus e metrô foi alvo de críticas e cercada de polêmicas. Para que ela fosse viabilizada do jeito que conhecemos hoje, muitas linhas de ônibus urbanas e metropolitanas precisaram deixar de circular ou serem seccionadas, ou seja, terem seus trajetos encurtados até um terminal de ônibus integrado a uma estação de metrô.

Muitos passageiros ficaram insatisfeitos com mudanças em linhas diretas e os proprietários das empresas ficaram descontentes não necessariamente com a retirada dos roteiros, mas com o fato de não haver um valor a mais no momento da integração, como acontece em São Paulo. Esse teria sido um dos fatores para a queda da arrecadação e, ao mesmo tempo, contribuído em partes com a crise que o sistema de Salvador vive atualmente.

 

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